Está certo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando tenta imprimir um caráter plebiscitário às eleições do próximo ano. Bem avaliado em todas as pesquisas de opinião, com mais de 80% de aprovação popular, o presidente sabe que só conseguirá eleger o sucessor – no caso, a atual ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff – se o eleitor associar a imagem da candidata à boa avaliação de seu governo. Dilma terá que ser vista, pelo cidadão/eleitor, como a garantia de continuidade da atual administração.
Apenas para citar um exemplo, as mais de 12 milhões de famílias beneficiadas hoje pelo Bolsa Família, em todo o país, terão que ver em Dilma a certeza de continuidade do programa. Mesmo que o principal candidato dos partidos de oposição, PSDB e DEM, anuncie a intenção de manter as ações assistenciais de inclusão social, o eleitor terá que identificar a candidata do PT como a candidata mais legítima e credenciada para representá-las. Afinal, ela levará a chancela não apenas do PT e seus aliados, mas também de Lula, um político carismático e fora de série.
Torna-se compreensível, portanto, o esforço do presidente para evitar o surgimento de outras candidaturas no espectro das forças políticas que apóiam o governo. Em recente reunião com os líderes do PSB, o Partido Socialista Brasileiro, Lula deixou claro que prefere ver Ciro Gomes como candidato ao governo de São Paulo. Em São Paulo, ao confrontar-se com os tucanos em seu principal reduto eleitoral, Ciro prestaria um serviço mais relevante aos “aliados” do que como candidato à Presidência da República, condição em que poderia tirar votos da candidata Dilma no primeiro turno das eleições.
Por mais que os líderes do PSB argumentem, afirmando que a candidatura própria do partido será importante para evitar uma decisão já no primeiro turno, muito provavelmente em favor do candidato da oposição (o governador de São Paulo, José Serra, aparece como favorito em todas as pesquisas), o presidente da República não se convence. Ele insiste em produzir um quadro polarizado de disputa, já no primeiro turno das eleições, para que o eleitor seja levado a optar, de imediato, entre a continuidade representada por Dilma Rousseff e as mudanças simbolizadas pelo candidato da oposição, seja ele José Serra ou Aécio Neves.
Em outras palavras, o presidente Lula está disposto a pagar para ver. Sua autoestima anda em alta e não poderia ser diferente: ele vem de duas vitórias expressivas em eleições presidenciais e obtém índices de aceitação popular sem precedentes. No exercício do mandato, sobreviveu a sucessivas crises políticas que sacrificaram a carreira de correligionários importantes, como os ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu.
Agora mesmo, a crise que acomete o Senado e um de seus principais aliados no Congresso, o senador José Sarney, nem ao menos ameaça arranhar a imagem do chefe de estado e de governo. O cidadão-eleitor, acometido por uma espécie de “empatia aguda”, parece dissociar a imagem de Lula de tudo que possa acontecer de ruim às instituições e ao país. Ele é colocado num patamar superior, acima do bem e do mal. Sua liderança é incontestável.
A pergunta que se faz é: conseguirá o presidente criar o cenário que deseja, na campanha do próximo ano, para forjar um plebiscito em que os eleitores terão de optar entre a continuidade e o fim de seu governo? Pode parece fácil, mas não é. Em política, não se pode relevar a importância do imponderável, do fato novo capaz de criar novos cenários e expectativas.